A história desse livro: No corredor dos cobogós, de Paula Fábrio

By 8 de abril de 2020 Blog

A história desse livro: No corredor dos cobogós, de Paula Fábrio

Lançado há um ano pela editora SM, esse livro é a estreia da premiada escritora entre o público infantojuvenil – uma obra que pessoas de qualquer idade podem amar.

No corredor dos cobogós cria uma ponte entre os anos de 2015 e 1982. Na cidade de Santos, Paula Fábrio criou uma forte e inusitada ligação, que enlaça gerações bem diferentes. Os dramas que os personagens vivenciam não demoram a raptar os leitores para a história em torno da menina Haidê e do garoto Benjamin. No depoimento a seguir, temos o privilégio de saber da ganhadora do Prêmio São Paulo de Literatura pelo romance Desnorteio como foi o caminho de No corredor dos cobogós até sua publicação. Paula Fábrio se une agora a João Anzanello Carrascoza, Lúcia Hiratsuka, Nanete Neves, Javier Contreras e Toni Brandão nesse arquivo de depoimentos tão ricos, ao mesmo tempo bastidores e ação principal do mundo do livro no Brasil.

por Paula Fábrio

Essa história começou quando passei a seguir os posts do crítico literário Alfredo Monte no Facebook, em meados de 2014. Além das resenhas que ele publicava, eu gostava de acompanhar a vida de seu cãozinho, o Costelinha, pois me lembrava bastante a minha própria cachorrinha. Além disso, Alfredo era amigo de escritores que eu admirava, entre eles José Luiz Passos, Maria Valéria Rezende e Elvira Vigna. Nas redes sociais, esse grupo trocava comentários cheios de argúcia e eu passei a ser fã de suas ideias e de sua postura diante da literatura. Então aconteceu de o Alfredo sofrer um acidente por causa do cachorro, para salvá-lo de outro cão maior, se não me engano. Daí pra frente, ele começou a ter problemas de saúde, especificamente de locomoção, e eu redobrei a atenção. O tempo foi passando e eu também tive alguns percalços relacionados à saúde. Eu apresentava alguns sintomas e não sabia o que era. A partir desse momento, troquei mensagens com o Alfredo e nós dois estávamos preocupados com nossos diagnósticos. No entanto, chegou um momento em que o meu diagnóstico se definiu, era algo simples, e eu me curei. Mas o Alfredo, não.

Logo soubemos que o Alfredo fora acometido por Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA) e, por razões óbvias, muitas pessoas do meio literário ficaram comovidas. Eu fui uma delas. Sabíamos, inclusive o Alfredo, que ele não teria uma vida longa, dali em diante. Nesse momento compreendi que eu havia chegado tarde em sua vida, não teria muito tempo para desfrutar de sua amizade. Então arrisquei inventar uma amizade para nós, para aumentar nosso tempo juntos, mesmo que fosse por meio da ficção.

Penso que eu já estava imbuída dessa ideia quando fui visitá-lo com a Maria Valéria Rezende, que tinha uma casa em Santos e me guiou até São Vicente, onde o Alfredo morava com uma gatinha, agora que o Costelinha se fora (atropelado nesse meio tempo). Durante aquela tarde, conversamos sobre literatura, política, sobre sua saúde, mas o que ele mais desejava, na verdade, era que eu visse sua biblioteca, os livros espalhados pela casa. Conheço muita gente apaixonada por livros, afinal trabalho com isso, mas nunca vi alguém como o Alfredo. Entendi que dali pra frente, seria, mais do que nunca, ele e os livros, até o fim.

Naquela mesma tarde, quando deixei a Maria Valéria em casa, passei pela orla de Santos e me lembrei que muitos anos atrás meus pais alugaram um apartamento de temporada em um daqueles prédios. Eu estava dirigindo rápido, mas teria gostado se tivesse visto o prédio. Entretanto, não parei o carro e subi a serra com esse desconforto no peito. E, enquanto passava pelos túneis, lembrei-me de modo nítido daquelas férias frustradas, pois minha mãe ficara doente naquele apartamento, por um mês inteiro. Na ocasião, sem muito o que fazer, travei amizade com uma menina menor que eu, acho que se chamava Érica ou algo parecido. Érica e a mãe eram as únicas moradoras daquele prédio, que estava vazio, pois corria o mês de julho e não fazia calor. A solidão daquela menina me impressionou. Quando me despedi, me dei conta de que ela ficaria novamente sozinha. Com essa lembrança, percebi que eu tinha obrigação de dar um amigo para aquela menina.

Juntei Érica, no livro com o nome de Haidê, e o Alfredo, cujo personagem se chama Michel. Incorporei a cidade de Santos como pano de fundo e comecei a escrever a história. Devido à idade de Haidê, uma menina que acaba de entrar na adolescência e da ternura nascente entre ambos os personagens, imaginei que só poderia ser uma história infanto-juvenil. Mas Michel devia ser mais velho, com muito conhecimento para deixar no planeta quando ele se fosse.

Ao mesmo tempo, por aquela ocasião, eu ministrava um clube de leitura para adolescentes na periferia de São Paulo e eles me perguntaram por que eu não escrevia um livro juvenil. De minha parte, perguntei se eles me ajudariam. E eles concordaram, contentes de participar desse processo comigo. É incrível como essa garotada se interessa por ficção, como eles são criativos!

Tomada a decisão, escrevi a história do “Corredor” durante um ano e meio e a cada quinzena mostrava meu progresso a esses alunos, que por sua vez me criticavam e orientavam, segundo seus gostos e conhecimento. A eles dedico o livro, pois até então eu não tinha experiência com esse público.

Ao longo da construção da história, mudei algumas coisas, várias coisas, como a ocupação do personagem principal, seu jeito de ser, incluí aspectos históricos e geográficos sobre Santos e também uma dose de ecologia, afinal muito do que pesquisei sobre a cidade e as duas épocas em que se passa a história (1982/2015) me levou para outras frentes.

Enfim, quando terminei o livro, enviei o original para quatro ou cinco editoras e a primeira a se interessar foi a SM, que me propôs sua publicação na Coleção Barco a Vapor, da qual eu já era leitora fiel. Na sequência, eu e a Graziela Ribeiro dos Santos, profissional de uma competência ímpar, trabalhamos ombro a ombro e levamos cerca de um ano entre edição, preparação de texto e revisão; na verdade, não apenas nós, mas toda uma equipe. Depois, a obra seguiu para impressão e acabamento. No fim das contas, o lançamento ocorreu em maio de 2019 e o Alfredo já havia falecido. Gostaria que ele tivesse segurado o livro entre as mãos, com a ilustração de capa assinada pela Catarina Bessel, artista cujo trabalho no mundo editorial tem muito a ver com tudo o que o Alfredo pregava e apreciava.

De todos meus livros, penso que No corredor dos cobogós é o mais bem acabado e o mais feliz também.

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