“Where We’re Going We Don’t Need Roads”

By 10 de agosto de 2018 abril 26th, 2019 Blog, Mercado, Profissão

“Where We’re Going We Don’t Need Roads”

Para onde vamos não precisamos de ruas.

Quando criança, eu era fã incondicional dos filmes do Spielberg. Acho que foi um dos poucos diretores que conseguiram captar a alma aventureira de uma criança e elevá-la a um sonho tão puro que a nostalgia, o sentimento de alegria e descoberta que seus filmes causavam, consegue nos abraçar até hoje. Eu amava a trilogia De volta para o futuro e, depois de tantos anos, a frase que fecha o primeiro filme retorna feliz à minha mente.

A cena é essa: Doc, Marty e Jennifer, nos últimos segundos do primeiro filme, entram em um DeLorean, agora em direção ao futuro. Marty vira para o doutor indagando que o DeLorean não conseguirá alcançar velocidade suficiente para funcionar naquela rua residencial. Mas eles estão indo para o futuro, lá não serão necessárias ruas, nem rodas. O DeLorean levanta, voa pelo céu e desaparece.

Quando eu era criança, 2015 era um futuro distante e, assim como tantos outros filmes e desenhos — Jetsons2001Star Trek etc… —, nós voaríamos ou seríamos teletransportados. Erramos por pouco. Claro que avançamos como era de se esperar, mas o acesso não se deve mais à tecnologia do itinerário, o caminho em busca de um objetivo, o intermediário. Queríamos estar em outros lugares para acessarmos o que aquele lugar poderia nos oferecer. Hoje podemos acessar qualquer coisa sem nos deslocarmos. Se no futuro dos anos 1980 a evolução tecnológica vinha pelo caminho, a real evolução veio pelo acesso virtual, ao fim. É verdade que ainda precisamos de ruas — os caminhoneiros estão aí para provar quantas vezes forem necessárias. Mas pelo menos podemos dispensar os caminhos quando falamos de acesso à informação.

O recado é claro: estamos cortando intermediários. E principalmente na cultura, a coisa ficou séria nos últimos dez anos. As indústrias cinematográfica e fonográfica logo entenderam o recado. Nós do mercado editorial fomos empurrando como pudemos e já estamos fazendo hora extra no que diz respeito à forma como oferecemos informação. Os leitores estão lá, e continuam atrás de boas histórias. Mas não conseguimos mais, através do intermediário — a nossa tão tradicional distribuição — chegar até ele.

Não nos surpreende o momento tão difícil, porque sabemos o quanto lutamos para manter as coisas como estavam. E a resistência continua, mesmo que se saiba impossível manter as coisas como estão. Muitos falam em marketplace, mas não sabem o que isso significa. Muitas editoras insistem em usar a livraria como única base para acesso aos leitores, pouco investem em criar experiências, conteúdo extra, redes sociais e outros formatos.

Com a entrada dos streamings à cultura popular, e a paixão por este tipo de acesso, com a facilidade da compra de livros online, com as curadorias sob demanda crescendo mais do que as próprias editoras, ainda estamos lutando para que as redes de livrarias peguem 90% de nossa tiragem em consignação, sabendo que esta conta não fecha.

Estamos insistindo em guiar no asfalto os carros voadores.

Tenho falado muito que o editor precisa pensar não como editor de livros, mas como editor de conteúdo. Em trabalhar diversas plataformas, em encontrar soluções para que o livro — a ideia, a história — chegue ao leitor, ao consumidor, à pessoa correta para aquela ideia. Temos um mundo virtual inteiro para trabalhar, mas ficamos desesperados mesmo é quando não temos dinheiro para uma ponta de gôndola. Para uma vitrine. As pessoas vão sempre precisar de informação, e esta é a pura verdade. Mas precisamos entender que a maneira de entregarmos essa informação mudou.

E não adianta mais insistir no old school da consignação, da exposição. Estamos morrendo neste sistema tão tradicional. Precisamos criar outros acessos. E este nem é mais o futuro. É o presente mesmo.

E é por isso, porque acredito nas histórias em qualquer formato, porque passei algum tempo sofrendo por não atingir o público que eu queria, pensando que o intermediário não pode mais me ajudar como a maior força bruta para distribuição. Porque passei meus dezenove anos de carreira pensando unicamente em ter quantos leitores eu pudesse.

Por isso mudei. (E na próxima coluna, trarei detalhes desta mudança)

E para onde eu vou, não preciso de asfalto.


Mariana Rolier
Há dezoito anos no mercado editorial, já teve passagens pela Globo, Planeta, Rocco e LeYa, onde ajudou a desenvolver o selo de quadrinhos Barba Negra e foi responsável por livros de fantasia e terror como a saga “As Crônicas de Gelo e Fogo” e “O Orfanato da Sra. Peregrine para Crianças Peculiares”. Atualmente é Gerente Editorial na HarperCollins Brasil.

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