O tempo certo de uma edição

By 29 de janeiro de 2020 Blog

O tempo certo de uma edição

Redação

A HISTÓRIA DESSE LIVRO

O tempo certo de uma edição

Lúcia Hiratsuka conta em entrevista o caminho de quase duas décadas do livro Chão de Peixes, ganhador do JABUTI 2019, equilibrando técnica e sentimento na ponta do pincel.

Lúcia Hiratsuka saiu da cerimônia do JABUTI 2019 quase pedindo ajuda pra carregar seus troféus: ganhou dois na noite. Um deles pela ilustração do livro Chão de peixes (Pequena Zahar, 2018). Sobre ele que a autora trata nessa entrevista à newsletter da LabPub, revelando que a demora,  desde que iniciou a criá-lo até a publicação, se transformou num amadurecimento que só fez bem. É a estreia da seção “A história desse livro”, que busca revelar um pouco do trabalho essencialmente coletivo que é o editorial. Nesse caso – e como é comum acontecer com Lúcia –, o livro chegou quase pronto na editora. Informação que também torna esse caso bem interessante. Ela normalmente monta os bonecos com muito esmero: texto, ilustração, projeto gráfico até. Disso Débora Barbieri foi testemunha, conforme contou no facebook:

“Quando a @lucia.hiratsuka me mostrou o “Chão de peixes” já semi-diagramado, percebi o desafio que tinha nas mãos para finalizar o projeto gráfico. Ilustrações maravilhosas e texto que é puro silêncio. A saída foi um projeto gráfico ultra minimalista para potencializar o estilo do texto e fazer as ilustrações brilharem.”

ENTREVISTA

LabPub – A ideia desse livro te habita há quanto tempo? Como você lembra dos primeiros passos dele? Você escreveu tudo e depois ilustrou ou como foi?

Lúcia Hiratsuka – Comecei a pensar nesse livro um tempo depois que o mestre de sumiê Massao Okinaka faleceu no ano de 2000.  Os primeiros rascunhos eram textos curtos, em prosa, a partir das imagens que eu tinha em mente, elementos da natureza ou lembranças do meu quintal no sítio Asahi. Com uns 25 textos, mais ou menos, comecei a pincelar os sumiês. E aí senti a necessidade de enxugar os textos, na medida em que montava um boneco. O projeto foi amadurecendo devagar, usei alguns sumiês que eram para ser apenas lay-out. Não adiantava tentar repetir as pinceladas.

LabPub – O sumiê é uma técnica que é uma espécie de assinatura sua a cada pincelada? É possível chegar a se reconhecer o artista pela pincelada?

Lúcia Hiratsuka – O professor Massao Okinaka dizia que não poderia haver nenhuma pincelada sem sentimento. Sim, seria algo como uma assinatura. No início seguimos os passos do mestre, depois cada um busca a sua forma de se expressar. Acho que é possível reconhecer o artista pelo todo, a pincelada é essencial, mas também a composição, o elemento escolhido para pintar, as nuances da tinta sumi (base de fuligem vegetal)… No meu caso, como trago o sumiê para o livro ilustrado, tem hora que misturo o material. Por exemplo: pinceladas com grafite, tinta sumi com aquarela, e já usei papel que nem é o mais apropriado para essa técnica, porém funciona como ilustração.

LabPub – Como foi o trabalho com a Zahar? Você procurou outras editoras antes? O que pode falar sobre esse caminho?

Lúcia Hiratsuka – Este foi um dos meus livros que mais demorou para ser publicado. Eu lembro que antes de 2008 já tinha o boneco montado e mostrava para os amigos. Enviei para algumas editoras, mas por motivos diversos não seguia até a publicação. Outros títulos passaram na frente, o que foi bom, deu uma visibilidade para o trabalho que vinha realizando. Por um tempo, deixei de lado o Chão de Peixes. Só voltei a ele depois que Orie (Pequena Zahar, 2014) recebeu prêmios, e fui pensar num próximo projeto para a Pequena Zahar. Tive um retorno ótimo e daí por diante tudo fluiu bem para a publicação. Cada título tem o seu tempo. O tempo trouxe uma maturidade, uma clareza de que não seria exatamente um livro de poesia com ilustrações, ou haicai ilustrado, e sim um Livro Ilustrado. Com isso, veio a decisão de quebrar os versos dos poemas que eram mais próximos dos haicais e misturar as frases com as imagens. Mas a essência continuou a mesma desde o início. No projeto gráfico teve a parceria da designer Debora Barbieri, que escolheu a tipologia para manter a ideia da simplicidade.

LabPub – Chão de peixes ganhou o Jabuti pela ilustração. Você ainda ganhou outro prêmio na mesma noite, por seu texto em Histórias guardadas pelo rio (Edições SM). Como é pra você hoje essa divisão/não-divisão do texto e da imagem em seus livros?

Lúcia Hiratsuka – Entendo que um livro ilustrado é uma arte em que diversas linguagens se dialogam para compor uma narrativa ou expressar uma ideia lúdica ou poética. Histórias guardadas pelo rio traz um texto mais longo, com bastante imagens construídas pelas palavras. A ilustração compõe o projeto gráfico. Enquanto escrevia, eu pensava que queria um livro com poucos desenhos, algumas vinhetas sugestivas e muito espaço vazio. Hoje, a partir de alguma questão ou algo guardado na memória, inicio o texto imaginando se será um livro ilustrado, um livro sem palavras, ou um livro com mais texto. Às vezes, no meio do processo muda o caminho. E isso é um desafio, é descobrir a essência da história ou o que me motivou a colocar no papel. O Chão de Peixes é um dos poucos livros que iniciei já pensando numa técnica específica, no caso a arte do sumiê.

Sabe o que é o sumiê? Se puder e tiver interesse, espie esse vídeo com Lúcia Hiratsuka em ação com os pincéis:

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